quinta-feira, 28 de julho de 2016

SOU MUITOS




Não sou apenas um, sou muitos. Sou o santo que reza no deserto e sou o pecador que gabaritou os sete pecados capitais. Sou a paz que se manifesta na meditação e sou a violência que fere meus irmãos. Sou Deus que governa o Universo e sou o verme que se rasteja no solo. Sou homem, mulher, criança, adulto, jovem, velho. Sou ser humano, sou cachorro, peixe, por vezes até inseto sou. Sou o devoto de Cristo que derrama lágrimas pelos próprios pecados e sou o cético que não acredita mais no pecado e no castigo. Sou o filho de Buda que só deseja a paz na mente, mas também sou o filho dos seres das sombras que deseja a vingança pelo mal que nos foi feito. Sou aquele que se arrepia com os acordes de Mozart e também aquele que movimenta os pés nas batidas de um funk barato. Sou aquele que recebe o santo no terreiro e aquele que se aquieta em meditação longe de tudo e de todos. Sou aquele que venera os santos de todas as religiões e acredita em todos os credos e também o ateu que não acredita em nada. Sou aquele que chora ao ler tragédias nos jornais, mas também sou aquele que comemora a morte de um assassino cruel. Sou aquele que discute por muito pouco e aquele que tolera ofensas terríveis. Já vi o Diabo e hoje não acredito em sua existência. Tenho a mente de um celibatário com votos de castidade mas tenho o coração de uma prostituta libertina e isso resume muitos dos meus problemas. 
Sou Peixes, Áries, sagitário, aquário, filho de Oxóssi, Omolu, Oxum, Iemanjá, sou de todos esses mas nenhum desses são meus.
Durante muito tempo tentei ser um só, solucionar esse enigma, me encontrar, realizar meu destino, conhecer o que sou. Porém um sábio que veio de muito longe disse que o "meu eu de muitos eus" é a minha forma de ser um só. Não sou um, sou muitos, mas nesses muitos sou um só.

sábado, 19 de setembro de 2015

BAILE SEM LUZ



Estou em uma festa e todos estão muito felizes. Vejo casais, bebidas, músicas, doces  e danças, todos rodam para lá e para cá como se estivéssemos em um sonho. Estou com ele e o levo por todos os cantos em uma valsa mal ensaiada, mas, mesmo tecnicamente mal, estamos executando uma dança que é verdadeira na alma. Já viram isso? Sim, há diversas ações que são perfeitas na alma e quanto mais imperfeitas na matéria mais belas são no espírito. Essa dança era assim e a levamos por toda a noite. Porém somos pessoas facilmente iludidas e trazemos em nós a ideia de que tudo é eterno e de que, não importa o que fizermos, tudo estará sempre aqui disponível para nós. Mas não estará.
De repente todas as luzes se apagaram e a escuridão tomou conta. Senti ele se afastar lentamente, como se estivesse sendo levado por um buraco negro. Quando as luzes se acenderam eu estava sozinho no salão de festas, eu e as bebidas e as músicas e os enfeites e  as vozes e os vestígios pelo chão e aquela sensação que sempre nos dá quando uma festa acaba, aquela ligeira tristeza que nos informa que teremos que retornar à nossa vida normal. E lá estava eu, sozinho, após um apagar repentino de luzes que me trouxe o fim da festa.
Não sei o que houve, não sei que evento sobrenatural se instalou no salão, só sei que todos, e inclusive ele, haviam sumido. Óbvio que me desesperei à princípio, óbvio que chorei sem ter como controlar. Que tipo de força é essa que transforma um baile em um salão vazio? Não sei, são forças além do nosso controle, forças a que não podemos dar ordens (quem nos dera pudéssemos). Ainda chorando entrei no elevador e apertei o botão do último andar, queria que ele subisse e subisse e subisse e me levasse até um ponto onde eu encontrasse essa força pessoalmente. Eu iria sobreviver a esse encontro? 
O elevador subiu por um longo tempo e por fim parou no último andar do edifício. Saí no terraço do prédio e gritei:
- O que aconteceu??? Que força é essa que tudo nos leva?
Fiquei um momento no escuro sem nada perceber. Onde estaria ele? Estaria feliz? Estaria sentindo saudades? Estaria sofrendo? Me perdi nesses pensamentos. Então, algo iluminou minha mente e percebi diante de mim a Força Poderosa Que Tudo Leva. Lá embaixo se estendia a cidade durante a noite, toda iluminada, movimentada, carros, pessoas, cores. Contemplei a cidade vista de cima e vi que debaixo de cada luz  havia pessoas  rindo, chorando, amando, odiando e experimentando todo o ardor da vida. Essa era a Força Poderosa Que Tudo Leva e lá embaixo todos já haviam tido contato com ela.  Vendo essa cidade de cima percebi com um misto de queda e glória que não estou sozinho.
- Não estou sozinho. 





domingo, 23 de agosto de 2015

BICHO-PAPÃO



A menina vestia seu pijamas da Disney e se agarrava a seu coelhinho de pelúcia enquanto dormia profundamente. Observando de perto vemos uma expressão serena e um ritmo de tranquilidade em sua respiração. Então, de repente, ouve-se um barulho estranho, como se uma unha monstruosa arranhasse uma lousa. Nossa menina acorda assustada e olha para todos os lados de seu quarto. O que poderia ser? O que causou esse barulho ? Olhou para a sombra que as luzes da rua faziam na parede e parece ter visto uma silhueta humana.  Apavorada a menina forçou a vista para ter a certeza do que era  e o que viu foi mais apavorante do que um espírito ou demônio, mais surpreendente  do que qualquer personagem do folclore de terrores infantis.
Nas sombras, sabe-se lá por que diabrura ou magia, a menina viu todas as suas dores, todas as pessoas que iriam machucar seu coração, viu todos os rapazes que a deixariam chorando em fins de semana infinitos, viu todos os dias que passaria nos hospitais com doenças diversas que a miséria do mundo faz surgir, viu todos os amigos que iriam seguir suas vidas deixando assim que ela vivesse a dela, viu a morte de seus entes queridos e a passagem incontestável dos dias marcando sua face com a velhice, viu todas as suas derrotas e todos os seus inimigos. Seus olhos estavam enormes de terror e não sabia nem como interpretar tudo isso.
Então, por um impulso foi até a janela e olhou para o lampião que projetava sua luz sobre o quarto provocando as pavorosas sombras. E, para sua maior surpresa, quando fixou seu olhar na luz que a cegava viu todas as suas alegrias, viu os rapazes que a amariam profundamente e que ao abandoná-la a deixariam mais forte e madura, viu todas as pessoas que lhe faria dar gargalhadas a ponto de chorar de rir, viu as seríssimas conversas com amigos de confiança onde ela sentia que poderia contar absolutamente tudo, viu todas as vezes que sairia do hospital completamente saudável e todos os dias de vida renovada. Viu todas as sessões de cinema, todos os passeios na natureza, a beleza das praias, o amor de seus familiares que nunca poderá ser descrito, sentiu o cheiro dos diversos churrascos, contemplou os natais e os presentes, cada ano novo, cada prece atendida, cada abraço dado ou recebido, cada beijo, cada email de amor.  Viu sua velhice cheia de histórias onde cada cabelo branco lhe revelava o sentido de todas as coisas e onde cada peça de quebra-cabeça tomava o seu devido lugar. Viu todos os sorrisos de todos os seres, viu toda a bondade e compaixão em milhares de pessoas, viu o Sol que iluminaria todos os seus dias.
A menina voltou-se então para a parede de sombras onde ainda passavam todos os terrores de sua vida, e disse resoluta:
- Eu não tenho medo!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

CARTOMANCIA DA MINHA PRÓPRIA FACE



Nunca fui de acreditar em ciganas e tarólogas... bom... mentira... sempre fui de acreditar nessas coisas e não vou começar nossa amizade mentindo pra vocês. Pronto, vou começar jurando sinceridade absoluta, estou cansado de mentiras, especialmente as que contei pra mim durante minha vida. Assumo então que sempre acreditei em ciganas  e tarot e esoterismo e quiromancia e espíritos e Deus e Jesus e Buda e Mestres ascensionados e yoga e Krishna e pensamento positivo e magia e pedras e felicidade e tudo o mais que parecer digno dessa lista. E talvez agora, ao ler minha lista, alguns já desistirão desse texto levantando seus manuais de filosofia e torcendo o nariz. A todos vocês que pretendem esfregar Marx e Sartre no meu texto peço encarecidamente que vão se foder  para sempre.
Iniciando novamente agora:
Sempre fui de acreditar em ciganas e tarot e por isso naquele dia aceitei o convite (mentira, fui por que quis mesmo)  pra ir em uma famosa tenda da Cigana Rosa Maria, lugar famoso, mas a que eu morria de medo de colocar o pé (vai saber né). Entrei na tenda tremendo literalmente e de olhos arregalados. Reparei logo na casa simples, na sala com um sofá e uma mesinha de centro, no incenso que impregnava o local e na própria cigana, uma mulher gorda e vestida com calça jeans e camisa amarela. Não sei que tipo de cigana se vestia daquele jeito e fiquei extremamente desapontado, com certeza ela era ruim e eu iria desperdiçar o meu dinheiro.
Sentei-me diante dela e ela colocou o seu baralho em cima da mesinha. Espalhou as cartas organizadamente em cima da mesa e acendeu um cigarro fedorento. Depois olhou fixamente em meus olhos e me perguntou:
- O que você quer saber?
Fui lá com um só interesse e era saber sobre o andamento futuro de minha vida em geral. Assim perguntei:
- Quero saber sobre o futuro de todas as áreas da minha vida.
A cigana deu uma longa tragada no cigarro e me olhou de cima a baixo terminando em meus olhos. Olhou para minhas mãos que ainda tremiam e para meus olhos onde ela lia sei lá que mistério, colocou as mãos nas cartas e sem virar nenhuma pra cima disse:
- Em breve você terá muitas doenças que se seguirão uma à outra,podendo até morrer bem jovem.  Você não vai conseguir nada de novo em sua vida profissional, vai continuar no mesmo lugar em que está e se não cuidar pode até ser demitido. Na vida amorosa tudo vai continuar igual, você vai continuar solteiro e sem ninguém, tem muitas chances de você nunca se casar. É o que eu vejo.
Olhei pra ela muito assustado e me enraiveci. Ela nem tinha virado as cartas, ela não leu o tarot. Como poderia estar falando aquelas coisas pra mim?
- Mas você nem leu o tarot, não tem como você saber essas coisas. Eu já fui em muitas tarólogas e sei que eu tenho que escolher algumas cartas e você vai interpretar.
Ela soltou a fumaça do cigarro para o alto e disse:
- Não preciso ler o tarot no seu caso, as cartas que eu preciso ler já estão estampadas em você. Suas mãos tremendo formam uma carta chamada O MEDO que mostra sua falta de coragem diante da vida e do desconhecido. Essa carta me mostra que você já vive agora os sofrimentos do futuro, que já está doente com as doenças do futuro, que já chora os fracassos que vão acontecer, que já lamenta sua solidão eterna. Seus olhos me mostram uma carta muito importante chamada A CRIANÇA, uma carta que indica com clareza que você não é um adulto ainda, que você pensa que ainda é uma criança indefesa e que fantasmas e bicho-papões te observam do escuro esperando o melhor momento pra te pegar. O modo discreto pelo qual você entrou aqui, tomando cuidado para não ser visto, mostra outra carta, A SOCIEDADE. Essa carta demonstra que você não vive por sua própria vontade, mas pela vontade alheia, Você sacrifica qualquer coisa que realmente queira se alguém impróprio estiver olhando. Some tudo isso e você mesmo pode deduzir o seu futuro em todas as áreas de sua vida. Com certeza, você só encontrará infelicidade e eu não posso fazer nada por você. 
Fiquei vermelho de raiva, me levantei violentamente quase derrubando a mesinha.
- Quanto custou a consulta?
Ela sorriu:
- Nada, usei o seu tarot e não o meu. Da próxima vez que pensar em ir a uma cartomante, se olhe no espelho primeiro.
Nunca mais voltei nessa cigana, imagine só,  uma cigana de verdade não se veste com calça jeans.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

FLUIR DO NORMAL


Olhei vigorosamente para o horizonte e senti a cor vermelha do Céu. Talvez não haja momento mais belo nas cidades do que o pôr do Sol, as nuvens são tingidas de um laranja avermelhado  que faz os filhos deste mundo recordarem que esses prédios e carros nada mais são do que frágeis pinturas em cima do mundo real. E foi bem no pôr do Sol, enquanto eu dirigia voltando do trabalho, seguindo o lento fluxo do trânsito paulista que eu o vi. Ele estava sentado no banco de uma praça antes cinza, agora alaranjada, e me olhava fixamente, poderosamente, definitivamente. Por um momento as buzinas, os gritos, o som do metrô, a vida, as eras, tudo silenciou naqueles olhos que, Valha-nos Deus, não há pessoa nesse mundo que não entenda seu significado (no mínimo sexo, no máximo casamento).
Era ali, era naquele momento. Porém, se eu o quisesse teria que fazer a curva e invadir a rua próxima , correria o risco de bater em alguém, de levar multas, de atropelar uma criança, capotar o carro, ser declarado culpado pelo acidente e não receber nada do seguro, nunca mais ser aprovado em um concurso, perder a carteira, deixar de...enfim...não fui até ele. Era dispendioso demais...era arriscado demais. Respirei fundo e continuei meu caminho nessa longa e tediosa fila de trânsito, seguindo as normas, encaixado em meu devido lugar, como uma peça de xadrez de um velho chato.

NATUREZA DA SOMBRA


                                       


Foi minha mãe quem primeiro percebeu que havia algo errado com minha sombra. Em uma manhã ensolarada ela me parou no quintal e disse:
- Filho, tem algo errado com sua sombra.
Vi apenas que meus contornos estavam meio irregulares, por mais que o Sol irradiasse uma intensa luz.
- Deve ser algum efeito da física que eu esqueci de estudar, mãe, alguma refração solar, sei lá. 
Depois disso fiquei incomodado, pois meus traços começaram a se distorcer cada vez mais, como se o desenho de minha sombra tivesse sido escrito por uma mão trêmula. Ainda culpava algum efeito da física, mas não tinha paciência para estudar essas coisas.
Duas semanas depois minha sombra começou a emagrecer e sua coluna começou a se encurvar. Com espanto percebi que minha sombra estava envelhecendo e se tornando monstruosa, enquanto eu permanecia com minha estrutura corpórea normal. Algo diabólico estava acontecendo.
Mais duas semanas depois e minha sombra passou a tossir sem que eu tossisse e eu juro por Deus Nosso Senhor que eu escutava cada tosse como se minha fosse. Rodando como criança debaixo do Sol percebi que minha sombra não me acompanhava, estava debilitada, já aparentava ter uns noventa anos!!!
Então, em uma sexta-feira atormentada, enquanto eu passava por um cemitério ensolarado, percebi que minha sombra não me acompanhava, ficou ali, agonizando no gramado verde que cobre os mortos. Em menos de uma hora, não sei ao certo, minha sombra respirou violentamente e morreu, desaparecendo gradativamente na luz, como infinitos pontos minúsculos a serem absorvidos pela luz. No exato segundo em que minha sombra deu seu último suspiro ocorreu um lampejo súbito e todas as sombras de tudo o que produz sombra tornou-se invisível para mim.Todos enxergam a sombra de tudo e eu não enxergo a sombra de nada. 
Místicos me disseram que a sombra é a alma e se assim for estou logicamente ferrado. Filósofos e todas as ciências humanas e inumanas, exatas e inexatas passaram a discutir a natureza da sombra, fizeram perguntas como "qual é a essência da sombra", "Em qual órgão físico a sombra está acoplada", "Será a sombra um ente vivo?" e por aí a fora. O fato é que ver ou não ver sombras, ter ou não ter sombras,  não serve para nada, parece-me que a sombra não tem utilidade. Assim, sendo viva ou morta, sendo jovem ou velha, correndo ou tossindo, bem delineada ou agressivamente mal desenhada, cá estamos, nós e nossas sombras, eu um mistério para ela e ela um mistério para mim.

sexta-feira, 14 de março de 2014

SEJA BEM VINDO



Dali demorou a morrer, agonizou por horas como cabia a um bom cristão. Sentiu todos os tipos de dores em todos os lugares possíveis, sem contar os terrores mentais (afinal quem conhece o inferno que se passa na mente de quem está morrendo?). O fato é que ele se separou do corpo com alegria e o prazer de deixar aquela massa dolorosa para trás foi o mais perto que ele chegou do êxtase.
Quando deu por si estava diante de um grande portão que guardava o acesso a um lugar enorme cercado de altos muros. Ao lado do portão um senhor de terno e gravata remexia papéis e carimbos em uma mesa de escritório. Ao se aproximar foi saudado pelo senhor:
- Olá, seja bem vindo ao Pós-morte. É só assinar esses papéis e entrar.
O senhor entregou a ele inúmeras folhas onde só constava uma linha de assinatura sem o nome de ninguém. Assim, ele questionou:
- Mas, nobre guardião, o meu nome não está escrito nesses papéis.
O senhor riu gostosamente, mas logo retomou a expressão de funcionário público e disse:
- Aqui ninguém precisa de nome. Você escreve o nome agora e depois nós cadastramos você.
- Mas...eu não estou pré-cadastrado? - perguntou ele decepcionado.
- Não. Desse lado é você quem se cadastra.
Assinou tudo e ficou admirado ao ver os portões se abrindo e o Paraíso se revelando diante de seus olhos. Porém, antes de o portão se fechar chegou outro falecido para o cadastro. Dali conhecia muito bem aquele que havia chegado, era o Assassino das Esquinas que estampou noticiários com seus crimes horríveis. O senhor do cadastro entregou papéis semelhantes ao Assassino e, após as assinaturas, lhe indicou a entrada para o Paraíso.
Dali ficou indignado e foi tirar satisfações. Voltou para perto do senhor enraivecido.
- Ei, o senhor não pode deixar ele entrar aqui. Esse cara é o Assassino da Esquina, ele matou mais de vinte mulheres!
O guardião deu um leve sorriso e respondeu:
- Amigo, aqui todo mundo pode entrar. Não temos censura, nem juízos morais, nem os dez mandamentos, nem nada semelhante. Todo mundo entra.
Dali já estava vermelho de raiva.
- Mas...e o inferno?
- O inferno é apenas uma história de bicho-papão e também uma piada de mau gosto...não sei bem ao certo. Mas eis a Verdade, todos os que morrem vão parar no mesmo lugar, sem divisões. Não é o máximo?
- Nããããããããão- gritou Dali enquanto observava uma bela prostituta chegar perto do portão. - eu fui à igreja todos os domingos, fiz parte de sete associações de caridade, li aquele livro de cabo a rabo, não fiz sexo fora do casamento (e olha que fui tentado pra cacete.... Bruninha se eu soubesse eu tinha te...), nunca cobicei a mulher do próximo, nunca bebi até cair, nunca usei cocaína nem maconha, nunca assumi que também sentia atração por homens, nunca matei o filho da puta do meu vizinho desgraçado, nunca ofendi meu pai ou mãe, nunca assisti novela, nunca sequer me permiti pensar fora do que permitiam....- nesse ponto Dali já estava chorando desconsolado. O senhor e a prostituta deram palmadinhas de consolo em suas costas. Então o senhor disse amigavelmente:
- É...azar o seu, amigo, azar o seu...