quinta-feira, 3 de outubro de 2013

VITRINE





João aproximou-se da vitrine com olhos arregalados, não de medo, mas de admiração. O próprio vidro da vitrine parecia ser feito de um material onírico, luzes jamais vistas cintilavam em uma espécie de universo recém-nascido. Afastou-se um passo, pois a mesma beleza que nos atrai, nos proíbe. Algo dentro de nós percebe que a beleza em vidros mágicos nos convida com uma mão e nos apresenta uma faca na outra. Dois minutos depois de se afastar, João se aproximou novamente e tocou a vitrine, pois esse mesmo algo dentro de nós também sabe que não resistimos à beleza e é óbvio que se esse algo sabe, a vitrine também sabe.
Agora, com as mãos no vidro, João pode olhar melhor o vestido dourado que é erguido lá atrás, de tecidos tão brilhantes que acentua ainda mais a ideia de sonho, ideia de universo paralelo. Seus olhos se enchem de lágrimas emocionadas, ele tem certeza que nunca viu nada mais belo do que esse vestido em toda a sua vida. Enquanto observa cada detalhe, cada flor dourada desenhada em linhas celestiais, ele vai perdendo as sensações de seu corpo e se sente flutuando em um mundo dourado, onde ele se torna aquele manequim de plástico e usa um vestido de ouro. Seus olhos concentram-se tão perfeitamente no vestido, que lembram um monge focando sua tão sonhada libertação eterna. Observando de fora pensaríamos que nada poderia tirar João dessa meditação brilhante, mas estamos enganados...
Passos começam a ecoar ali perto e a rua antes vazia começa a se encher de pessoas de terno, gravata e vestidos, gravatas em homens e vestidos em mulheres...o universo paralelo se desfaz e João é jogado no universo ao qual está subjugado. Um homem se posiciona perto de João e o observa com expressão absurda, como se ali estivesse uma aparição demoníaca (talvez com o demônio a expressão seria mais amena, pois todos já sabemos que ele anda por aí nos assombrando, empurrando-nos para as igrejas).
 João retira rapidamente sua mão da vitrine, pensa, pensa, pensa e finge estar limpando o vidro.
- Eu não suporto vidros sujos, mania! - diz oferecendo um sorriso aos ternos e gravatas. O homem retorna o sorriso, balança a cabeça em sinal de sim e continua sua caminhada no universo normal, regrado, definido, subjugado.
João nem se atreve a olhar mais para o vestido, sai correndo perseguido por ternos, gravatas, vestidos, homens, mulheres e cruzes...sim, meu Deus...quantas cruzes.

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